O romance policial de Agatha Christie – o destino dos assassinos

 

Apaixonada por livros de mistério, pelos romances policiais de Agatha Christie desde os tempos do Clube do Livro, tive a oportunidade de assistir ao curso ministrado na ECA – Escola de Comunicações e Artes, em 2015, para o qual escrevi o texto abaixo:

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O DESTINO DOS ASSASSINOS NOS ROMANCES DE AGATHA CRHISTIE: punição e castigo.

 

Introdução

Apesar de não ser da aristocracia, Agatha Christie, educada no período Eduardiano e vivendo na Inglaterra pós-vitoriana de estrutura social rígida e estreitos valores morais reflete esses mesmos valores nos seus romances: seus detetives mais do que desvendar o crime chegam a estabelecer punições para criminosos pertencentes a essa mesma sociedade aristocrática, que visem não abalar a estrutura social, onde o importante é a valorização da nobreza e do sobrenome e restabeleçam a ordem das coisas antes do assassinato para que a vida volte ao normal.

Os criminosos raramente pertenciam ao pessoal doméstico, sendo geralmente aristocratas, nobres ou profissionais de relevância na sociedade, como médicos, oficiais do exército, que devido à rígida moral da época, não poderiam fugir à punição ainda que moral.

Alguns dos destinos dos assassinos, no entanto não eram a detenção, a exposição à sociedade. O suicídio foi uma das saídas mais honrosas encontradas nos romances de Agatha Christie, abaixo comentados.

Desenvolvimento

É correto que uma pessoa cometa um assassinato e escape da condenação pela Justiça do Estado? Em alguns dos romances policiais de Agatha Christie o assassino é protegido e acobertado por alguém que toma o seu lugar, confessando ou até mesmo impedindo que o crime ou sua identidade sejam revelados. Em outros, são levados à autopunição, tirando a própria vida.

O Assassinato de Roger Ackroyd (1925)

O detetive Hercule Poirot conta com a ajuda do Doutor Sheppard (personagem narrador da história) para solucionar o mistério do assassinato de Roger Ackroyd, morto em sua biblioteca com uma adaga, para impedi-lo de descobrir quem chantageara a Sra. Ferrrars, com quem pretendia se casar, a ponto de fazê-la cometer suicídio.

No capítulo 23 Poirot começa a arrumar o palco para a reunião com os envolvidos onde o mistério será revelado e o assassino desmascarado. Dr Sheppard é sutilmente questionado sobre suas impressões, sua participação e até a importância de seus registros, que a exemplo do Cap. Hastings, ele mantinha durante a investigação ao lado de Poirot.

Criada a tensão e terminada a reunião, Poirot conduz o Dr Sheppard ao final honroso, que é o suicídio, dando a ele tempo para finalizar seus registros antes de comunicar ao inspetor Raglan.

Nota-se que toda a tensão da descoberta, da ação da polícia, da prisão, do julgamento, da exposição pública fica assim minimizada, já que o assassino, morto pelas próprias mãos já teria sido punido.

A Casa Torta (1948)

Aristide Leonides morre por uma injeção letal e a suspeita recai sobre a jovem viúva, muitos anos mais nova que o marido.

As investigações são conduzidas pelo inspetor Taverner que tem como coadjuvante o narrador, Charles Hayward, amigo de Sophia Leonides, neta de Aristide.

Josephine, neta mais nova de Aristide, acompanhando em paralelo as investigações segue revelando “segredos” e indicando “pistas”. Outra morte acontece (a Babá) e Josephine é considerada o alvo do assassinato por envenenamento e Charles decide protege-la.  Buscando ser o centro das atenções anota em um caderninho preto suas ações e é esse caderno encontrado que revela a verdadeira mente perturbada da menina, a assassina.

A cunhada de Leonides, Edith de Haviland, suspeitando e finalmente descobrindo a verdade sobre Josephine, assume a culpa. Deixa dois envelopes na casa: uma carta para o inspetor Taverner onde confessa ter matado o cunhado e um segundo envelope endereçado a Charles com o caderninho preto de Josephine onde na primeira página se lê: Hoje matei meu avô.

Provocando um acidente de carro Edith morre ao lado da sobrinha, que assim privada da vida não terá que prestar contas à justiça terrena e nem será condenada a um futuro de isolamento em entidades de saúde e sanatórios por longos anos.

 Poirot perde uma cliente (1937)

Num fim de semana em que a família da Srta. Arundell está reunida na propriedade acontece um estranho acidente em que ela cai da escada no meio da noite. Todos culpam seu cachorro Bob que teria deixado uma bola no alto da escada.

Ela sobrevive e passa a suspeitar que esteja em perigo e escreve a Poirot. Quando dois meses depois ele recebe a carta, a Srta. Arundell já está morta e aparentemente de causas naturais.

Poirot passa a investigar e descobre que a queda foi a primeira tentativa de assassinato que deu errado e fez o assassino agir novamente.

Todos são suspeitos, as duas sobrinhas, o sobrinho, o marido estrangeiro da sobrinha e a governanta, mas friamente Poirot conduz o encerramento do caso, convencendo e orientando pessoalmente a culpada – Sra. Anabela Tanios ao fim honroso do suicídio, aqui tomado como overdose acidental.

Sem exposição, sem escândalo para a sociedade, para poupar aos filhos e ao marido a verdade.

Assassinato no Expresso Oriente (1933)

Numa viagem do Expresso do Oriente um dos passageiros, Mr. Ratchett, é encontrado morto com múltiplas facadas. Como não havia possibilidade do assassino ter deixado o trem todos são suspeitos. Hercule Poirot assume a investigação e  desvenda a trama ao  descobrir a verdadeira identidade de Ratchett, um criminoso responsável pela morte de uma criança da família Armstrong.

Assim, conforme os padrões éticos e morais dos passageiros e do próprio Poirot, o assassinato de Ratchett é aceitável. Quando o crime for hediondo e pelo menos 12 pessoas, o mesmo número de jurados num tribunal,  concordarem  que  o acusado é o criminoso, então é aceitável condená-lo à morte  ou matá-lo. Poirot e os personagens do romance tomam a morte de Ratchett como justa.

Um passe de mágica (1952)

Quando Miss Marple  reencontra Ruth (Miss Marple e as irmãs Ruth e Carrie Louise são amigas  desde os tempos do colégio ) e esta compartilha seus temores de que  Carrie estaria correndo perigo na mansão da família,  que agora abriga um centro de reabilitação para jovens delinquentes, decide ajudar.

Quando mortes acontecem em Stonygates é Miss Marple com sua perspicácia e astúcia quem vai juntando as peças e evita que sua amiga seja a próxima vítima.

Lewis Serracold, o atual marido de Carrie Louise na administração do centro de reabilitação manipulava os fundos tendo como cumplice seu filho Edgar Lawson, que comete os crimes de assassinato.

E no fim Lewis Serracold sacrifica a própria vida pelo filho, num desenlace que poderia ser considerado acidente por afogamento e que o livra da exposição à sociedade.

 

Conclusão

Nas investigações o objetivo maior dos detetives é sempre descobrir a verdade e que através dela a justiça seja feita, o culpado condenado e a vitima. A ordem estaria então restituída e a vida voltaria à normalidade

E como a lei poderia ser burlada e o criminoso se safar da condenação se tivesse conexões e dinheiro, entram em cena os valores morais e éticos da autora e é valido o recurso da punição e castigo ainda que não conduzidos por um júri e juiz.

USP Escola de Comunicações e Artes

Departamento de Jornalismo e Editoração
Disciplina: CJE-0650 – O Romance policial de Agatha Christie
Prof. Jean Pierre Chauvin
Aluno-ouvinte: Ana Maria Afonso
Novembro 2015

 

 

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